Após o massacre realizado pela mídia rasteira e blogs pouco confiáveis, aos poucos textos menos preconceituosos, baseados em fundamentos mais seguros também começam a surgir. Sim, estou me referindo ao uso ritualístico/terapêutico das chamadas "plantas de poder", mais especificamente ao caso da ayahuasca. Saiu hoje no UOL matéria sobre o possível uso deste chá no tratamento de depressão e dependências químicas. Ao contrário do que foi dito em artigos críticos pouco fundamentados, existem diversos estudos científicos já realizados (e outras centenas em andamento) que indicam grandes benefícios no uso do chá feito a partir do cipó Banisteriopsis Caapi e da planta Psychotria Viridis. Por agir no sistema IMAO (inibidor da enzima monoamino-oxidase) o chá de ayahuasca produz um aumento na quantidade de serotonina disponível no cérebro (exatamente a mesma função desempenhada pelos remédios antidepressivos de laboratório). Pergunta: por que então a sociedade olha torto para os ayahuasqueiros enquanto se entope de prozac?
Outro artigo interessante foi o que saiu na Folha de São Paulo no dia 13 de Abril. Fala do uso terapêutico da psilocibina contra a depressão. A psilocibina é a substância presente num determinado tipo de cogumelo famoso também por causar alucinações (como a ayahuasca).
Povos indígenas sempre foram profundos conhecedores destas plantas. Em suas tradições mais antigas sempre incluíram tais "plantas" como forma de "medicamento". Os Xamãs de cada tribo eram as pessoas responsáveis por curar os enfermos de suas tribos. Curiosamente não encontramos relatos de depressão entre os índios de antigamente (é importante que se diga: antes dos colonizadores chegarem por aqui).
Em tempo, saiu hoje artigo na Folha enumerando os diversos efeitos colaterais dos nossos antidepressivos. Ganho de peso, tremor, diminuição da libido e insônia teriam sido subestimadas pelos médicos e pelas pesquisas realizadas com esses medicamentos. É lógico, se estas pesquisas são financiadas principalmente pelos mesmos laboratórios que fabricam tais medicamentos qual o sentido em destacar aspectos negativos de seus produtos? Entretanto, parece que tais efeitos contribuem consideravelmente para que os pacientes abandonem o tratamento; e isso os psicólogos acompanham de perto com os seus pacientes.
Hoje, em nossa sociedade "avançada", baseada nos princípios da ciência e da projeção de resultados, visando a evolução, o crescimento e o "bem-comum" temos um cenário interessante: de um lado os bur(r)ocratas corruptos de um governo de mentira aliando-se às multinacionais para construir um desastre ecológico-sócio-econômico-ambiental chamado Belo Monte e do outro, novamente (por que será que eles ainda estão aqui?), os índios brasileiros alertando para o grande erro a ser cometido. Pois é, eles não tem a ciência, não sabem o que falam, não estão interessados em crescimento econômico...
Então, me pergunto, por que raios os laboratórios ultramodernos estão interessados em desenvolver antidepressivos copiando os índios?
O futuro desta aventura é fácil de se prever: laboratórios americanos vão procurar patentear a psilocibina e a DMT (dimetiltriptamina) para uso em seus medicamentos (se é que já não o fizeram), os quais certamente serão mais eficientes principalmente por apresentar menor índice de abandono do tratamento, menos efeito colateral e que, portanto, serão comercializados com a propaganda de serem "mais naturais"...
Pois é. Tenho a impressão de que o Império do Prozac está com os seus dias contados. No final, será a cultura indígena (com seus métodos rudimentares e pouco "científicos") que fornecerá ao homem branco a cura de seus males...
Como bem disse um famoso e profético compositor baiano:
"...Do objeto, sim, resplandecente descerá o índio
E as coisas que eu sei que ele dirá, fará, não sei dizer
Assim, de um modo explícito
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio."
(Um Índio, Caetano Veloso)
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segunda-feira, 26 de abril de 2010
segunda-feira, 15 de março de 2010
Em Defesa da Ayahuasca
Desde o trágico ocorrido na madrugada de sexta-feira, 12 de março, tenho escutado certos comentários infelizes a respeito do uso ritualístico do chá de ayahuasca na tradição do Santo Daime.
Parece que as pessoas teimam em acreditar que “as drogas” (assim mesmo de modo bem generalizado e indiscriminado) são os grandes vilões da ordem e da paz no mundo. Na minha opinião, isto consiste em erro grotesco.
Em primeiro lugar, não existe uma entidade “as drogas” a que possamos nos referir. Simplesmente porque existem milhares de tipos de drogas e substâncias que podem atuar como “droga” no corpo humano. Impossível generalizar e colocar todas num mesmo balaio. Afinal, vamos lembrar que o cafezinho e o açúcar que vai nele também são drogas, uma vez que seus mecanismos de alteração de estados psíquicos são descritos cientificamente (o que em nossa sociedade, sabemos, confere a autenticidade desejada). Não pretendo nem entrar na polêmica dos medicamentos psiquiátricos prescritos de maneira indiscriminada por qualquer graduado em medicina, independente de sua especialidade. Está triste, melancólico? Toma um Prozac. Em tempo, no caderno de saúde da Folha de São Paulo do dia 25 de fevereiro saiu uma matéria informando que: “Um relatório com dados de 2009 divulgado ontem pela Junta Internacional de Fiscalização a Entorpecentes, ligada à ONU, revela que houve um crescimento no abuso de medicamentos, que, em alguns países, tornou-se mais comum do que o consumo excessivo de drogas ilícitas como heroína, cocaína e ecstasy juntas”. Para ler a matéria clique aqui.
Voltando ao caso da ayahuasca: O Daime costuma ser referência para muitos dependentes químicos como possibilidade de mudar de vida e abandonar seus vícios. Sabemos que “se encontrar” em uma religião é muitas vezes o que salva a vida de muitas pessoas que se encontravam em situações de dependência. O engano que as pessoas estão cometendo é considerar o chá da ayahuasca como simplesmente mais uma droga que “surta” as pessoas e pode causar inclusive assassinatos como o de sexta-feira. Será que é verdade? Pergunta: essas pessoas que soltam estas acusações conhecem de fato a ayahuasca? Já provaram o chá? Sabem a sua história? (que começa no Brasil antigo através dos rituais sagrados indígenas, estes povos conhecedores dos profundos mistérios da natureza). Antes de mais nada, é preciso saber o que faz o chá (o sentido original da palavra “saber” guarda a mesma origem etimológica de “sabor”, portanto é preciso saborear o chá para conhecê-lo antes de realizar qualquer julgamento, do contrário tudo o que for dito será puro preconceito). Aqui lembro-me de uma das frases de Heráclito que publiquei em outro post; dizia ele: “Pois cães ladram contra os que eles não conhecem”.
Glauco, assim como Lennon, Luther King, Gandhi ou Yitzhak Rabin (só os que me lembrei assim “de cabeça”) foi assassinado por um admirador. Alguém próximo, que o invejava secretamente e que provavelmente se sentia ameaçado pela atitude doce e amável de seu ídolo. Isto é humano! Uma face não muito agradável de se ver, mas ainda assim típica do homem. Afinal, não vemos tigres ou lagartos planejando assassinar seus semelhantes.
Não devemos perder de vista que, em ultima instância, é uma pessoa que comete o crime. Pois na hora derradeira, não é nunca a cocaína que aperta o gatilho, mas um homem (como eu e você). Acho isto grave! Este deveria ser o foco da preocupação. As drogas são muitas e com os mais variados usos, mas não são elas que devem ser julgadas por um crime. Quem mata, o faz porque tem ódio, raiva, inveja, abandono, desamparo, desespero, não porque é ou está drogado.
Parece que as pessoas teimam em acreditar que “as drogas” (assim mesmo de modo bem generalizado e indiscriminado) são os grandes vilões da ordem e da paz no mundo. Na minha opinião, isto consiste em erro grotesco.
Em primeiro lugar, não existe uma entidade “as drogas” a que possamos nos referir. Simplesmente porque existem milhares de tipos de drogas e substâncias que podem atuar como “droga” no corpo humano. Impossível generalizar e colocar todas num mesmo balaio. Afinal, vamos lembrar que o cafezinho e o açúcar que vai nele também são drogas, uma vez que seus mecanismos de alteração de estados psíquicos são descritos cientificamente (o que em nossa sociedade, sabemos, confere a autenticidade desejada). Não pretendo nem entrar na polêmica dos medicamentos psiquiátricos prescritos de maneira indiscriminada por qualquer graduado em medicina, independente de sua especialidade. Está triste, melancólico? Toma um Prozac. Em tempo, no caderno de saúde da Folha de São Paulo do dia 25 de fevereiro saiu uma matéria informando que: “Um relatório com dados de 2009 divulgado ontem pela Junta Internacional de Fiscalização a Entorpecentes, ligada à ONU, revela que houve um crescimento no abuso de medicamentos, que, em alguns países, tornou-se mais comum do que o consumo excessivo de drogas ilícitas como heroína, cocaína e ecstasy juntas”. Para ler a matéria clique aqui.
Voltando ao caso da ayahuasca: O Daime costuma ser referência para muitos dependentes químicos como possibilidade de mudar de vida e abandonar seus vícios. Sabemos que “se encontrar” em uma religião é muitas vezes o que salva a vida de muitas pessoas que se encontravam em situações de dependência. O engano que as pessoas estão cometendo é considerar o chá da ayahuasca como simplesmente mais uma droga que “surta” as pessoas e pode causar inclusive assassinatos como o de sexta-feira. Será que é verdade? Pergunta: essas pessoas que soltam estas acusações conhecem de fato a ayahuasca? Já provaram o chá? Sabem a sua história? (que começa no Brasil antigo através dos rituais sagrados indígenas, estes povos conhecedores dos profundos mistérios da natureza). Antes de mais nada, é preciso saber o que faz o chá (o sentido original da palavra “saber” guarda a mesma origem etimológica de “sabor”, portanto é preciso saborear o chá para conhecê-lo antes de realizar qualquer julgamento, do contrário tudo o que for dito será puro preconceito). Aqui lembro-me de uma das frases de Heráclito que publiquei em outro post; dizia ele: “Pois cães ladram contra os que eles não conhecem”.
Glauco, assim como Lennon, Luther King, Gandhi ou Yitzhak Rabin (só os que me lembrei assim “de cabeça”) foi assassinado por um admirador. Alguém próximo, que o invejava secretamente e que provavelmente se sentia ameaçado pela atitude doce e amável de seu ídolo. Isto é humano! Uma face não muito agradável de se ver, mas ainda assim típica do homem. Afinal, não vemos tigres ou lagartos planejando assassinar seus semelhantes.
Não devemos perder de vista que, em ultima instância, é uma pessoa que comete o crime. Pois na hora derradeira, não é nunca a cocaína que aperta o gatilho, mas um homem (como eu e você). Acho isto grave! Este deveria ser o foco da preocupação. As drogas são muitas e com os mais variados usos, mas não são elas que devem ser julgadas por um crime. Quem mata, o faz porque tem ódio, raiva, inveja, abandono, desamparo, desespero, não porque é ou está drogado.
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